"The Morning Show", o corporativismo do assédio sexual e como um predador se convence de que não o é

É talvez a produção televisiva mais interessante a encarar de frente e a desconstruir o movimento #MeToo. E Jennifer Aniston está incrível num registo totalmente diferente do habitual.

Quando me sentei para escrever esta newsletter, comentei que, pela primeira vez, sentia que não havia nada de novo e de surpreendente no catálogo da Netflix que merecesse destaque. Mas há cada vez mais coisas para ver. Aliás, um dia depois estreou-se “The Witcher”, aquela que promete ser a próxima grande série da plataforma.

Parece ser este o jogo da Netflix: assoberbar o utilizador com mais conteúdo (mesmo que mais de metade seja de má qualidade), apostando na ideia de que há sempre qualquer nova para ver — ao mesmo tempo que o mantém preso ao serviço com lançamentos estratégicos (“The Crown”, “Stranger Things” e, sim, “La Casa de Papel”).

É na concorrência que tenho visto um salto de qualidade gigante, mas também a maior falta de brio e de respeito pelo cliente.

Falo especificamente da HBO Portugal que, na segunda-feira, 16 de dezembro, falhou na estreia em simultâneo com os EUA (às 2 horas, em Portugal) do último episódio de “Watchmen”. Aconteceu o mesmo com todos os episódios da última temporada de “Game of Thrones”.

Às 19h23 de segunda-feira, o episódio continuava indisponível para clientes Vodafone. Pior: em nenhum momento do dia houve uma reação da plataforma que, desde que chegou a Portugal, continua com as mesmas falhas de comunicação e com os mesmos problemas técnicos.

Mas é muito bonito virem com discursos preparados de como é preciso acabar com a pirataria. Com um serviço destes em que, por 4,99€ mensais, não estão assegurados os mínimos? Difícil.

Vamos às séries deste mês.

“Modern Love” (Amazon)

Para gostar de “Modern Love” é preciso pôr o cinismo de lado e estar predisposto a ver televisão lamechas e pirosa. Mas também romântica e bonita, especialmente numa altura em que a ficção se preocupa em demasia com a hipersexualização das relações e com o dating online. A série vai no sentido oposto para se focar apenas nas histórias de amor que são diferentes a cada episódio, e cujos elementos já não se veem em televisão.

Aqui não interessam as críticas (paternalistas) a uma sociedade que se avalia através do swipe do Tinder, e muito menos que isso aconteça só para uma noite de sexo. Interessa, sim, contar como é estar apaixonado e o que significar encontrar o amor num mundo moderno. E todas as histórias são reais, publicadas na famosa coluna do “The New York Times”, que também deu um podcast.

“Modern Love” tem uma estética muito semelhante à dos filmes de Woody Allen, em que Nova Iorque, não tendo peso e destaque, serve como pano de fundo para os intervenientes e as suas histórias através de elementos estéticos da cidade (o porteiro do primeiro episódio, é um bom exemplo).

Apesar disso, é também muito irregular. Há episódios muitos bons (como o que é protagonizado por Anne Hathaway, que retrata muito bem o que é viver diariamente com depressão e bipolaridade), mas há outros mais fracos que não têm o impacto desejado.

Mas no geral, é uma série muito fofinha que não custa ver. Afinal, tem só oito episódios.

“The Morning Show” (Apple TV+)

É a grande série do serviço da Apple e também o primeiro grande papel de Jennifer Aniston pós-”Friends”, que surge num registo totalmente diferente e que seria impensável há uns anos.

Pelo contrário, Reese Witherspoon, outra das protagonistas, surge igual a tantos outros papéis que já fez — dando vida a uma mulher furacão, impulsiva e que causa o caos por onde quer que passe. Por vezes, sair da zona de conforto pode valer mais do que cingir-se ao mesmo registo.

“The Morning Show” faz lembrar “The Newsroom” só que aqui, o foco é apenas um: os bastidores de um canal televisivo, líder de audiências nos EUA, à medida que se vê a braços com um escândalo sexual pós-#MeToo depois de um dos pivôs (Steve Carell) ser despedido por assédio sexual.

E se a série arrancou meio tremida por parecer uma caricatura inverosímil do que é o meio e das pessoas que o compõem (com a personagem de Reese Witherspoon, jornalista, a agredir um manifestante sem mais nem menos durante uma reportagem, como se não soubesse que estava a ser filmada), foi ganhando tração a cada episódio.

E é talvez a mais interessante produção televisiva a encarar de frente e a desconstruir o movimento #MeToo, as relações de poder em contexto de trabalho e a forma como um predador sexual se convence de que não o é.

Um dos episódios da série é dedicado inteiramente à forma como a personagem de Steve Carell manipula, seduz e se aproveita de mulheres que, por o admirarem, se deixam levar por um convite.

O convite, claro, leva a uma cama na qual o corpo da mulher, inerte, é explorado, violado e aproveitado de forma doentia por quem não percebe os sinais. Por alguém que não entende o conceito de consentimento. Por alguém que se mantém convicto de que não é um predador e cujo corporativismo o protege e incentiva a continuar.

A temporada terminou esta sexta-feira, 20 de dezembro, e pelo meio ficaram linhas narrativas por resolver. Houve uma exposição desnecessária de personagens que nunca foi retomada, como se os argumentistas tivessem decidido à última qual o caminho que queriam que a história seguisse.

Por isso, “The Morning Show” não é uma série digna de prémios (está nomeada nos Globos de Ouro e nos SAG), nem é uma das melhores do ano. Mas entretém, é interessante e não deve ser ignorada.

“Servant” (Apple TV+)

Esta é a melhor e mais interessante produção do catálogo da Apple TV+ até agora, mesmo que esteja a ser promovida com uma pequena batota. Diz a Apple que “Servant” tem o cunho de M. Night Shyamalan quando, na verdade, é apenas um dos produtores e só realizou o primeiro episódio.

O argumento é de Tony Basgallop e tem tanto de estranho como de delicioso. Um casal aparentemente normal contrata uma babysitter para cuidar do bebé na sua ausência. Problema? O bebé não passa de um boneco que substitui a criança que morreu durante a gravidez.

O pai vive assoberbado pela experiência, mas a mulher, por se recusar a enfrentar a realidade, acredita piamente que o bebé é real. E se for?

A série é estranha o suficiente ao ponto de, com seis episódios já estreados, não perceber muito bem o que está a acontecer (embora tenha algumas teorias). A história envolve elementos sobrenaturais, religiosos e de bruxaria com uma narrativa concisa de 30 minutos fixos por episódio.

A quatro episódios do fim, as teorias nos fóruns de discussão multiplicam-se e é isto que dá vontade de seguir uma série semanal. Mesmo que sejam poucos a acompanhá-la.

“Bosch” (Amazon. Sugestão de Pedro Boucherie Mendes)

“Com cinco temporadas disponíveis na Amazon Prime Video, “Bosch” é um belo exemplo de como é possível adaptar livros numa série e acrescentar-lhe algo.

Baseado na criação de Michael Connelly, é um procedural com arcos que duram a temporada, com um excelente elenco, do protagonista Titus Welliver aos seus comparsas (destaque para Jamie Hector ou Lance Reddick de “The Wire”) e família. 

É a típica série policial contemporânea passada em Los Angeles que beneficia e muito dos atores e da dimensão da personagem Harry Bosch, um agente da LAPD cheio de tormentas e falhas, filho de uma prostituta assassinada, cuja determinação carrega as histórias às costas.

Crimes, polícias, advogados, politiquices e poderosos servidos por grandes atores naquela que é a série mais longa do catálogo do serviço de streaming.”


Obrigado a todos os 1,496 subscritores que continuam desse lado. E ao Pedro Boucherie Mendes, diretor da SIC Radical e Diretor de Planeamento Estratégico do grupo Impresa, por ter aceite o convite para sugerir uma série nesta edição da newsletter.

Vemo-nos na próxima. Qualquer dúvida ou sugestão, encontram-me pelo Twitter.

Fábio Martins

"Watchmen" faz-nos chafurdar no extremismo e na supremacia branca dos EUA

Promete ser a próxima grande série da HBO pós-"A Guerra dos Tronos" e, embora tenha máscaras, não é sobre super-heróis.

Depois de uma pausa em setembro para pôr a vida (e as séries) em ordem, a newsletter está de volta e com quatro convidados para compensar a ausência.

Trago-vos mais recomendações e um sneak peek daquela que promete ser a próxima grande série da HBO para os próximos meses.

Refiro-me a “Watchmen” que, além de ter a tarefa dificílima de adaptar um universo de culto da banda desenhada, é da autoria do Damon Lindelof — o homem que conseguiu criar uma obra-prima como “The Leftovers” depois daquele pedaço de cocó que foi “Lost”.

“Watchmen” estreia-se na HBO esta segunda-feira, 21 de outubro. Vamos a isso?

“Gomorra” (HBO)

👉Estávamos em 2006 quando a vida de Roberto Saviano mudou. O escritor passou grande parte da vida adulta a estudar a Camorra, a máfia italiana, e a investigação deu um livro. O sucesso foi imediato: vendeu milhares de cópias e foi traduzido para 51 línguas.

Saviano tornou-se numa celebridade e hoje vive em clausura, sob escolta policial constante e entre trocas de casa com regularidade. O livro, que inspira a série, não agradou a máfia que viu os os seus segredos, meios de funcionamento e crimes mais obscuros revelados a milhões de pessoas. Em entrevista ao “The Guardian”, descreve com têm sido os últimos anos.

“Esta vida é uma merda. É difícil descrever o quão má é. Existo dentro de quatro paredes em que a única alternativa é aparecer publicamente”, rodeado de uma dezena de guarda-costas e em perigo iminente de morte.

Só isso basta para entender aquilo que se mostra em “Gomorra”. É um retrato real, duro e violento da crueldade da máfia em Nápoles, onde a luta pelo poder e a desigualdade de classes opõe organizações que pintam as ruas com o sangue dos inocentes. Esta é para os fãs de “Os Sopranos”.

“The Affair” (Netflix)

👉É das séries mais adultas, densas e complexas atualmente em emissão, em que todas as falhas são desculpáveis quando entendemos a narrativa que quer contar. Um romancista nos seus 40 anos sente-se estagnado no casamento e na vida profissional, e isso leva-o a envolver-se com uma empregada de balcão por quem a atração é imediata e mútua.

Problema? No meio do sexo louco e do escapismo que aquela mulher lhe oferece, há um crime que marca a relação e que ambos recordam de maneira muito diferente quando confrontados pela polícia.

Chama-se a isto O Efeito Rashomon. O termo nasceu em 1950 com o filme de Akira Kurosawa, no qual uma vítima de violação, os suspeitos e as testemunhas recordam a tragédia de forma muito diferente.

Em “The Affair”, a memória é inconsistente e distorcida, a verdade não é fiável (nem importante) e os pontos de vista são histórias. Histórias que, enquanto pessoas, contamos, protagonizamos e defendemos porque são o arquétipo da nossa inocência e da nossa identidade enquanto seres civilizados. São a nossa verdade — mesmo que não seja verdadeira.

"Watchmen” (HBO)

👉A HBO pediu duas vezes a Damon Lindelof que adaptasse o livro de Alan Moore para a televisão e o argumentista recusou. Em parte porque a questão ética de reinterpretar a obra de alguém que rejeita qualquer adaptação o deixava inquieto. À terceira vez aceitou. Assim nasce esta versão de “Watchmen” que, diz Lindelof, o deixou “miserável”.

Percebe-se porquê: além de temer que Moore (que diz ser praticante de magia) lhe tenha lançado mau-olhado, tem consciência do legado do livro de banda desenhada e do quão muita gente vai odiar esta versão que não é uma adaptação.

A história passa-se em 2019 onde a ameaça não é a de uma guerra nuclear, mas sim a da força crescente da extrema-direita encarnada por um grupo de encapuçados com a máscara de Rorschach. A série faz-nos chafurdar no extremismo e na supremacia branca dos EUA que leva a que, mais do que os vigilantes, sejam os polícias a terem de cobrir os rostos com máscaras para não correrem risco de vida.

Ao contrário do que acontece no livro, aqui a ideia não é desconstruir o super-herói mas sim perceber o que acontece quando usamos uma máscara e por que razão o fazemos.

Por proteção ou por conveniência? Porque nos dá rédea livre? Vão estes polícias fazer uso da máscara para cometer uma série de crimes com a certeza de que, tal como os vigilantes do livro original, estão protegidos pelo anonimato? Parece ser esse o caminho — até porque só assim, assumido-se crítica do status quo e da política dos EUA de Donald Trump, é que faz sentido.

💡Vale a pena acompanhar. A opinião é partilhada por Manuel Reis, fundador do podcast “A Cabeça do Ned” e “Já A Seguir”, que diz que “vai ser interessante ver os próximos episódios para perceber como é que a série se vai desenrolar”, embora reforce que “a mensagem a tirar é que isto é bastante diferente do livro e que, por isso, não deve ser visto como uma adaptação.”

💡Já Pedro Miguel Coelho, ex-diretor do “Espalha-Factos”, garante: “Não há aqui heróis impolutos e a linha entre o certo e o errado parece pouco definida, com temas complicados como tensões raciais, retórica fascista e abuso de autoridade. Vai haver sangue e, tudo indica, o final não vai ser limpo.”

“Wanderlust” (Netflix)

👉Parece que só agora é que estamos a acordar para a Toni Collette e qualquer oportunidade é boa para a ver representar. E porque a vida é feita de infelizes coincidências, “Wanderlust” põe uma terapeuta, habituada a ajudar os pacientes a reconciliar-se com os seus dilemas, a braços com a possibilidade de a relação com o marido estar por um fio.

Já não há atração, o sexo é aborrecido e mecânico. Até que um acidente de bicicleta leva o casal a procurar soluções para combater a monotonia.

A solução? Uma relação aberta e poliamorosa, onde cada um tem espaço e liberdade para se envolver com quem quiser se isso significar voltar a sentir desejo, saudade e paixão um pelo outro.

Vale a pena e os seis episódios passam a correr.

“Comedians in Cars Getting Coffee” (Netflix. Sugestão de Pedro Varela)

👉“Jerry Seinfeld é um génio e este é um ponto de partida importante. “Comedians in Cars Getting Coffee” tem três características fundamentais para ser recomendada.

Em primeiro lugar, mostra o lado mais pessoa de Seinfeld — que serve como mote para as conversas com os convidados que escolhe a dedo. Depois, os carros. É curioso ver como Jerry olha para cada comediante e de que forma o associa às viaturas que conduz. Por último, permite-nos conhecer outros humoristas e perceber de que forma estão associados a Seinfeld e como inspiraram a sua carreira.

Esta última temporada conta com a participação de Eddie Murphy, Seth Rogen, Matthew Broderick e Jamie Foxx, numa série de episódios que geralmente são curtinhos e bem animados.”

“The Good Place” (Netflix. Sugestão de Guilherme Trindade)

👉“Não leiam, não ouçam e não procurem nada sobre a série. “The Good Place” põe quatro personagens muito humanas, para o bem e para o mal, a defrontar-se com a natureza filosófica dessa dualidade.

Podia cansar a metafísica, mas a pílula vem bem dourada pelas falhas dos humanos que, mesmo no paraíso, continuam a deixar-se levar pelo egoísmo e pela insegurança — que conduzem a situações hilariantes.

É um equilíbrio tão delicado que só um ensemble feito dos ingredientes perfeitos na dose certa conseguia funcionar. O humor foi o que me cativou. O coração e a preocupação com as personagens foi o que me fez ficar.”


Um obrigado especial aos convidados Pedro Varela, fundador da “Revista1906” sobre o Sporting, e ao Guilherme Trindade, escritor, realizador e criador da comédia interativa “Apaixonados” — da RTP.

Outro abraço ao Manuel Reis e ao Pedro Miguel Coelho pelos comentários sobre “Watchmen”.

Vemo-nos na próxima edição da newsletter. Qualquer dúvida ou sugestão, encontram-me pelo Twitter.

Fábio André Martins

"Derry Girls" é a melhor sitcom britânica que ninguém está a ver

Esta semana trago-vos também um thriller negro baseado num crime que tem tanto de violento como de real.

Agora que a febre de “La Casa de Papel” acalmou (embora não se tenha sentido o fenómeno de 2018) há mais coisas giras — e boas — para vos colar à televisão durante as próximas semanas.

E uma delas é uma sitcom britânica que regressou à Netflix com uma segunda temporada e que provavelmente ninguém sabe que existe. Culpa do algoritmo da plataforma?

Curiosamente, terá sido por estar pouco visível na Netflix que “Tuca & Bertie” foi cancelada depois de uma primeira temporada muito elogiada pela crítica.

Estas são as séries fixes para ver que deveriam estar a comentar com todos os vossos amigos.

“Safe” (Netflix)

👉 Foi uma das minhas preferidas de 2018, mas está longe de ser perfeita. Em parte devido à escrita, que começa com enorme potencial mas que no final nos leva a dizer: “tanta coisa para isto?”. A história já a vimos replicada noutras séries: uma miúda foge de casa e os segredos mais obscuros da comunidade onde vive vão sendo expostos a cada episódio.

É a prestação de Michael C. Hall que nos mantém focados — mesmo que, apesar de viver há mais de um ano no Reino Unido, continue a não acertar no sotaque.

Por ser britânica, é uma produção mais negra e geralmente menos espalhafatosa nos desfechos ainda que este vá ao encontro do cliché do costume: a ideia de que o dinheiro (todas as famílias da trama são de classe média-alta) não traz felicidade. E isso dá-nos sempre algum conforto, verdade?

“I Am the Night” (HBO)

👉 Estávamos em 1947 quando o corpo totalmente mutilado e sem vida de uma mulher foi encontrado em Los Angeles. Na altura ainda não se sabia, mas este seria um dos assassinatos mais violentos dos EUA pós-Segunda Guerra Mundial a ser discutido durante anos nos jornais.

O homicídio d’A Dália Negra (o nome dado à vítima de apenas 22 anos) gerou uma lista de mais de 150 suspeitos mas o culpado nunca foi encontrado.

Cerca de 72 anos depois, esta série usa o caso e as memórias da neta de um dos principais suspeitos (um ginecologista acusado de violar a filha), como inspiração.

Apesar de ser pouco falada e recomendada, é um thriller negro, tenso e perfeito para quem é fã de séries como “True Detective”, “Broadchurch” e “The Night Of”.

“Derry Girls” (Netflix)

👉 Feita a pensar naqueles que cresceram durante os anos 90, esta é talvez a melhor sitcom britânica que ninguém está a ver.

É uma história com e sobre miúdos. Ou, mais especificamente, sobre o que é ser-se adolescente num contexto político e cultural de grande tensão — em que a Irlanda do Norte sofre bombardeamentos de vários grupos paramilitares que estão contra o domínio britânico.

Mas o contexto é apenas ruído de fundo para percebemos a forma de agir das personagens que estão mais preocupadas com o facto de não poderem ir a um concerto por estarem de castigo ou por verem uma sessão de solário estragada depois de rebentar mais uma bomba.

Apesar do background sério e sufocante, a série é leve, ácida e muito satírica. E atualmente não há nada do género que lhe chegue aos calcanhares.

“You” (Netflix. Sugestão de Sophia)

👉 ”A série que meteu em causa a legitimidade de um stalker com base no sentido de humor ou no facto de ser bonito. É que, com dez episódios, começamos a afeiçoar-nos ao pobre Joe porque ele nos envolve com o seu humor negro, cultura e “inocência” — fazendo-nos acreditar que não tem outra hipótese a não ser matar quem se aproxime da amada.

O impacto da série foi tal que Penn Badgley, o ator que dá vida ao sociopata, pediu que não idolatrassem a personagem. ‘You’ diz-nos que é mais fácil perdoar um mau comportamento quando ele vem de um rapazito jeitoso e de riso fácil.

Embora não seja marcante, serve para nos pôr a pensar onde começa a obsessão e onde acaba a beleza de quem a alimenta.”


Obrigado a todos pela leitura e à Sophia, que no Twitter assina como Sophia Qualquer, por ter aceite o convite para escrever sobre a série “You”.

Vemo-nos na próxima edição da newsletter. Qualquer dúvida ou sugestão, encontram-me pelo Twitter.

Fábio André Martins

Ninguém quer ver a nova "La Casa de Papel" mas todos vão comentá-la

A história não é nova, mas tanto cativa um miúdo como o quarentão que vê na televisão o escape ao stress diário.

A televisão tem esta coisa de nos fazer odiá-la ao mínimo erro. É por isso que, quando amuamos, generalizamos e dizemos que não a vamos ver mais porque é má — mesmo que estejamos a par de tudo o que se passa, dos programas que estão a dar e das polémicas.

As reações à nova “La Casa de Papel” vão ser muito semelhantes. Ninguém a vai querer ver (porque só pode estar horrível, certo?) mas todos vão espreitar, vão saber o que aconteceu e vão querer comentar. Apostamos?

Estas são as séries que vos trago esta semana. 👇

“Ozark” (Netflix)

A única que mais se aproxima de “Breaking Bad” e que conta com dois atores que não estavam interessados em regressar à televisão — Jason Bateman e Laura Linney. Ele aceitou porque além de representar, podia realizar e evoluir como produtor. Ela tinha curiosidade em ver como o colega se transformava num papel denso e dramático.

A família Byrde é obrigada a mudar-se depois de contrair uma dívida enorme a um cartel mexicano durante uma operação de lavagem de dinheiro. Há perseguições, mortes bizarras, planos e vilões larger than life. A escrita é tão precisa que a equipa de produção aprendeu, com um agente do FBI, a lavar dinheiro para que tudo fosse o mais autêntico possível.

Aos poucos, vamos assistindo à perda da bússola ética e moral das personagens que há muito que deixaram de apenas tentar sobreviver e viram no poder uma sensação deliciosa. Lembra-vos alguma coisa?

“Euphoria” (HBO)

Vou incendiar o circo: lembram-se de como o “The Revenant” foi uma merda gratuita e sem história? Assim é “Euphoria” que ganharia o prémio de série mais provocadora se houvesse.

Está bem filmada e realizada, e talvez por isso mereça que a espreitem. Mas anda sempre entre o choque e o cliché ao insistir numa versão niilista e catastrófica do que (não) é a adolescência. Embora seja passada no tempo presente, a história vai buscar muito ao estilo dos anos 90 e é essa veia geracional que pode ser interessante para alguns.

A nudez é totalmente gratuita e exagerada. Há mamas, 30 pénis num só episódio, felácios, sexo explícito e overdoses. Mas dados recentes mostram que isto não está em concordância com a forma de os jovens se comportarem.

“Master of None” (Netflix)

Foi filmada como se fosse um stand-up e é a que mais representa isto de ser millennial. Antes do escândalo de abuso sexual que obrigou Aziz Ansari a afastar-se dos holofotes, era aqui que nos falava um bocadinho da sua vida enquanto ator. O foco são os desamores, as irritaçõezinhas sem importância e o racismo numa altura em que Donald Trump ainda não era presidente dos EUA.

As personagens são familiares porque muitos dos maneirismos são reais, como os pais de Aziz que fizeram de si próprios sem nunca terem representado. E é a arriscar que a série ganha pontos como quando, num episódio da segunda temporada, Aziz nunca aparece.

Para reforçar a diversidade de Nova Iorque, os produtores entrevistaram motoristas de taxi, porteiros e surdos. O resultado é um dos momentos mais hilariantes da série, quando um grupo de surdos tem um discussão acesa sobre vaginas em língua gestual.

“La Casa de Papel” (Netflix)

A produção espanhola cativa porque há sempre qualquer coisa a acontecer. As personagens são identificáveis e a história, ainda que simples e nada inovadora, não desilude e mantém-nos agarrados com qualquer informação nova que nunca parece forçada.

Além disso, é muito versátil e transversal porque é capaz de entreter um miúdo de 15 anos ou o quarentão solitário que vê na televisão um escape ao stress do trabalho. É isso que leva a que novas pessoas a vejam e a comentem.

Afinal, ninguém quer ficar de fora da conversa — nem mesmo os que juram que não vão ver a nova parte. No mínimo, espreitam sempre. E arrisco em dizer que está melhor do que as anteriores. No fundo, é a mesma fórmula repetida duas vezes com tudo o que isso tem de bom e de mau.

Sobre a série, a convidada Joana Rita Sousa diz que temos atraco. 👇

Segurem-se: os oito episódios da nova temporada da série que trouxe a máscara de Dali para a ribalta não desiludem. Há drama, atraco, histórias de amor, aikido, muito ruído, boom boom ciao e até há Berlim.

A banda sonora e os planos de realização acompanham uma história com ritmo que nos leva a conhecer melhor cada das “cidades” envolvidas no assalto à Casa da Moeda espanhola. Desta vez a tarefa passa por resgatar Rio. Não é pelo dinheiro, é pela família. Qual é o plano? Maratona.


Obrigado a todos pela leitura e à Joana Rita Sousa (sigam-na no Twitter!), comunicadora e fundadora do #twitterchatpt, que aceitou comentar os novos episódios de “La Casa de Papel”.

Vemo-nos daqui a duas semanas, a 4 de agosto. Qualquer dúvida ou sugestão, encontram-me pelo Twitter.

Fábio André Martins

Já todos fomos o totó de "Love" que se apaixonou pela pessoa errada

Nesta semana trago-vos também a série que promete matar saudades de "True Detective".

Olá.

Decidi alterar a estrutura da newsletter para um formato que espero ser mais apelativo. Vamos experimentar lançar isto de duas em duas semanas e com menos sugestões em cada edição.

A ideia é torná-la menos pesada e de fácil leitura, o que para mim sempre foi o mais importante. Além disso, vai deixar de ser aquele e-mail que recebem uma vez por mês e que já nem se lembravam de que existia. Vamos a isso?

Estas são as séries que deveriam estar a ver.

“Broadchurch” (Netflix)

Não é “True Detective”, mas quase. Um miúdo aparece morto na praia de uma pequena vila inglesa e descobre-se que os habitantes têm um segredo mais ou menos obscuro. Qualquer um deles pode ser o assassino. É a típica investigação de dois detetives que aqui são protagonizados pelos excelentes David Tennant e Olivia Colman.

A escrita não desilude, as personagens estão bem aprofundadas e o enredo vai ficando cada vez mais complexo a cada episódio. O sucesso foi tal que foram filmados vários finais e os atores tiveram acesso limitado aos guiões durante as gravações.

“Catch-22” (HBO)

Esta comédia negra é deliciosa. Acompanha um soldado da Força Aérea durante a Segunda Guerra Mundial que, para deixar de combater, tenta todos os estratagemas de modo a ser considerado maluco.

Não cai na tendência de ridicularizar ou menosprezar os horrores da guerra e há ali momentos muito tensos e difíceis de ver — principalmente no ar. É produzida por George Clooney e se achavam que um nome gigante como este ia ofuscar a qualidade da série, pensem novamente. Do guião à fotografia, é tudo perfeito.

“Love” (Netflix)

Um nerd apaixona-se por uma manipuladora que acaba por ver naquele rapaz desajeitado e tontinho a solução para a sua vida problemática e instável. Foi uma das séries mais subvalorizadas de 2016 e conheço pouquíssima gente que a tenha visto.

A escrita é cativante e a história cria um sentimento de identificação com quem a vê. Precisamente porque já todos fomos o totó de “Love” que se apaixonou pela pessoa errada e que esperou que tudo fosse dar certo. No meu caso não deu. Está tão bem feita que os episódios de 30 minutos nunca sabem a pouco.

“The Terror” (Amazon Prime Video)

Arrisco em dizer que é melhor projeto de Ridley Scott em televisão. Inspirada numa história real, conta a expedição da marinha real britânica para descobrir a Passagem do Noroeste no Ártico. Spoiler: não correu bem e a tripulação ficou presa no gelo.

É aí que é obrigada a sobreviver ao frio, à falta de recursos e a uma figura misteriosa que nunca se vê e que simboliza o desconhecido. É daquelas séries que consegue sufocar o espectador à medida que a tragédia se vai desenrolado por entre atos primitivos, como o canibalismo, na tentativa fútil de sobreviver.

“Deadwood” (HBO. Sugestão de Safaa Dib)

“David Milch, foi até aos confins do Oeste americano do séc. XIX e, com uma eloquência shakespeariana extraordinária, recuperou um memorável leque de figuras históricas.

As três temporadas, de qualidade irrepreensível (rematadas por um filme que decorre dez anos após o final da série), constroem um retrato brilhante da civilização americana a irromper dos territórios sem lei, forjada por homens e mulheres que convivem diariamente com a violência e a morte nas fronteiras da nação. Uma série imperdível e que se encontra num patamar sem igual na ficção televisiva.”


É tudo por enquanto. Obrigado aos 1.252 subscritores até agora e à Safaa Dib (sigam-na no Twitter) por ter aceite o meu convite para escrever sobre “Deadwood”.

Se gostarem de ler coisas giras, subscrevam a newsletter semanal do Jorge Félix Cardoso com “recomendações para ler, ver, ouvir e fazer.” Digam que vão daqui.

Vemo-nos daqui a duas semanas, a 21 de julho. Qualquer dúvida ou sugestão, encontram-me pelo Twitter.

Fábio André Martins

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