"What/If" é a pior série do ano e a melhor trash TV dos últimos tempos

Parece ter sido propositadamente mal escrita, mas nem por isso conseguimos parar de a seguir.

Olá, tudo bom por esse lado?

Agora que já tivemos tempo de digerir o desastre que foi “A Guerra dos Tronos” e “Chernobyl” provou que merece ganhar todos os prémios a que for nomeada, o que é que há para ver? Muita coisa, meus amigos. Muita coisa.

A convidada deste mês é a Marta Leite Ferreira (sigam-na no Twitter), jornalista do Observador. A Marta está a ver “Breaking Bad” pela primeira vez mas decidiu escrever sobre “Frágil” — a nova série da RTP Play que fala sobre esta coisa de ser millennial.

Estas são as séries fixes que deviam estar a seguir.


“Frágil” (RTP Play). Tenho 25 anos e não faço tanto sexo como os meus pais faziam com a minha idade. Não saio à noite. Quero mais dinheiro — é, mas gastas o que tens na Netflix! — mas isso é por soberba. Não compro uma casa — é, mas de viajar gostas tu! — mas isso é por comodismo. Não tenho filhos porque não me entrego à aventura da parentalidade e só quero casar para dividir despesas. Não sei questionar coisas. E quando questiono é porque me acho demasiado boa. Sou uma feminista de meia tigela porque até admito que um homem me dê passagem numa porta.

E sou uma ambientalista da treta porque gosto de abacate. Podia ser tudo. Nunca vou ser coisa nenhuma. Morri na praia porque nasci dos anos 90. "Frágil" é sobre isto. Mais ainda: é sobre o lado B deste rótulo que dá à volta à minha geração.

Conta a história de três raparigas com espírito artístico cujos planos de vida estão em suspenso numa cidade que elas não podem pagar, mas onde lhes prometeram que tudo vai resultar. Mais dia ou menos dia. Talvez. E eu sou cada uma daquelas raparigas, que come noodles a 60 cêntimos para afogar mágoas, tenta esquivar-se aos vícios, tenta perceber o amor e a amizade. E onde fica a fronteira entre os dois.

Marta Leite Ferreira


“Succession” (HBO). Esta é para todos aqueles que gostam de jogos de poder e momentos de tensão a cada episódio (o que “Billions” deveria ter continuado a ser, por exemplo). Acompanha a família Roy, que procura herdar o império dos media do pai. Cada vez mais debilitado, este deixa a empresa aos filhos… mas afinal não deixa.

O argumento está bem montado e os atores, apesar de relativamente desconhecidos, são todos eles incríveis. Até mesmo os secundários. Foi uma das melhores séries de 2018 e ganhou o prémio de Melhor Produção Estrangeira nos BAFTA — batendo “The Handmaid’s Tale”. Só isso devia bastar para vos deixar curiosos.


“Fleabag” (Amazon Prime Video). Fleabag é uma mulher que vive nos subúrbios de Londres e que embarca numa descoberta pessoal e sexual intensa. Fleabag representa cada um de nós na busca de resposta às perguntas “quem somos?” e “para onde caminhamos?”.

Imaginem “Master of None” mas com a qualidade a que a televisão britânica já nos foi habituando.

A protagonista, que recorrentemente fala para a câmara naquele exercício perverso de reconhecer que a estamos a observar, é a alma da série. Por isso e muito mais, esta é das melhores coisas que a Amazon tem no catálogo atualmente.


“When They See Us” (Netflix). No final da década de 80, cinco miúdos negros conseguiram estar no sítio errado à hora errada. Enquanto estavam todos no Central Park, cada um com o seu grupo de amigos, a polícia recebe uma denúncia de uma violação.

Os cinco miúdos são presos e acusados do crime — mas na verdade foi o tom de pele que os condenou. A vítima era branca e a tensão racial estava a fervilhar nos EUA.

Ameaçados e coagidos pela polícia, os cinco foram obrigados a admitir um crime que não cometeram. Os depoimentos eram incongruentes, não havia provas e o local do crime estava isento de ADN. No final, foram condenados injustamente e serviram penas entre 6 a 13 anos até o verdadeiro culpado se entregar à polícia em 2001.

A minissérie da Netflix é urgente de se ver e, para mim, uma das surpresas do ano. A história é dura, real e tem bons atores a desempenhá-la. Vale muito a pena espreitar.

O ingénuo que há em mim está curioso com o possível impacto que isto poderá ter nas próximas eleições nos EUA.


“Dead to Me” (Netflix). Uma comédia negra que surpreendeu pela forma delicada e até inteligente como lida com a morte e o luto. Acompanha a amizade improvável de duas mulheres que, apesar de nada terem a ver uma com a outra, estão unidas pela morte: os maridos morreram cedo demais. Mais ou menos.

A temporada está repleta de twists do início ao fim que nunca parecem forçados ou irrealistas, por isso não quero revelar demasiado. A história está muito bem construída, os atores são incríveis e o sucesso foi tal que a série já foi renovada para uma segunda temporada.


“Years and Years” (HBO). Não é “Black Mirror”, mas faz um retrato dos tempos modernos e de um futuro que tem tanto de iminente como de assustador.

Acompanha a vida de uma família britânica ao longo de 15 anos, que depressa se vê no meio do caos num mundo social e tecnologicamente avançado que nem eles compreendem. Tudo isto depois de uma bomba nuclear deixar o mundo em alerta.

A par de “When They See Us”, é das séries mais importantes e urgentes de se ver atualmente, de tão real que é.


“#SÓQNÃO” (RTP Play). É o novo programa da Joana Martins (sigam-na no Twitter) que põe vários convidados a desconstruir, cada um à sua maneira, esta coisa do preconceito. Em conversa com a Joana, contou-me que este é o seu pequeno contributo para uma “internet do bem”.

Para isso, convidou pessoas desconhecidas que já tenham sido ou que ainda estejam sujeitas a qualquer tipo de preconceito.

Os assuntos são vários e vão desde a sexualidade à saúde mental e, no final, tomamos consciência de que todos somos preconceituosos. E não há nada de errado nisso. Está tomado o primeiro passo.


“Good Omens” (Amazon Prime Video). Não é para todos mas esta é uma das pérolas de 2019.

A adaptação do livro do Neil Gaiman conta, muito resumidamente, uma história de duas personagens — um anjo e um demónio — que, cada um com as suas razões, não quer que o mundo acabe com o nascimento do anticristo.

Não vos convenci? Não quero revelar demais, por isso deixo-vos com isto: o elenco é de luxo com David Tennant, Michael Sheen e Jon Hamm nos papéis principais. No fundo, falamos de boa televisão.


Recomendo também “O Mecanismo”… a série brasileira sobre a Lava Jato que conseguiu manter a qualidade da primeira temporada. A trama continua intensa e há ali momentos que podiam muito bem ter feito parte dos filmes “Tropa de Elite” — e isto é um elogio. Na Netflix.

Ainda sobre o Brasil, espreitem “Bandidos na TV”a nova série documental da Netflix sobre Wallace Souza, um apresentador brasileiro que mandava matar pessoas para ganhar audiências com o seu programa de crónica criminal.

Apesar de Wallace criticar a criminalidade do país, soube-se em 2009 que tinha montado uma rede de tráfico de droga e de assassinos contratados. Concluídas as investigações, o filho e a assistente de produção foram presos. Wallace nunca chegou a cumprir pena.


Série que talvez valha a pena se estiverem no mood certo.

“Black Mirror” (Netflix). Eu sei que custa, mas está na hora de aceitarmos que esta série sempre foi estupidamente sobrevalorizada. Teve momentos bons, outros geniais, e alguns muito aborrecidos ao longo das temporadas. Não é, e nunca foi, uma série consistente. Só que na última temporada isso tornou-se mais evidente.

“Bandersnatch”, o filme interativo, foi um bom presságio sobre a falta de rumo e de propósito que viriam a ser estes novos episódios.

Por algum motivo, deixou de haver vontade de arriscar e de se ser irreverente. De mostrar um futuro distópico e iminente, para apostar em histórias (bem filmadas e bem contadas, é certo) moralistas. Que não nos deixam a pensar e que acabam por cair em esquecimento.

Continua a valer a pena espreitar, atenção. Só não está à altura do que foi feito antes e é uma pena. Gostei muito do primeiro episódio da nova temporada e encontro ali algumas semelhanças com o filme “Moonlight” — especialmente pela forma como aborda a complexidade das relações e da sexualidade humana. A partir daí foi sempre a descer.

O último episódio, com a Miley Cyrus, falhou redondamente o alvo. Pareceu uma manobra de promoção e, no final, fiquei sem perceber muito bem qual era a mensagem que deveria ter sido capaz de interiorizar. Que ser sugado criativamente para fazer dinheiro é mau? Que somos pessoas de merda? E novidades?


A série que não deveriam ver nem que vos pagassem.

“What/If” (Netflix). A nova série com a Renée Zellweger consegue ser a pior merda deste ano e, ao mesmo tempo, a melhor trash TV dos últimos tempos. Nada faz sentido naquele argumento.

As personagens são desinteressantes, as linhas narrativas secundárias não têm qualquer ligação com a história principal e já há quem acredite que a série foi mal escrita de propósito para ser viciante.

E o dilema está aí: é tão horrível que não conseguimos deixar de a seguir. Mas eu segui-a para que vocês não tivessem de o fazer. Basicamente, conta a história de um casal que se vê obrigado a aceitar o investimento de uma milionária louca (Renée Zellweger).

Há jogos de poder e a típica sedução dos anos 80, bem como várias outras coisas desconexas e risíveis.

Por exemplo, está sempre a trovejar sempre que a personagem da Renée espreita pela janela nos momentos mais dramáticos. Logo no primeiro episódio, a personagem principal começa a fazer tiro com arco no meio da cozinha. Porquê? Não se sabe, nunca saberemos e ninguém quer saber, na verdade.

As linhas temporais são difusas e é fácil perder o fio à meada durante os episódios que só continuamos a ver porque queremos saber, afinal, o que é que a personagem da Renée tem sobre o casal para os ter conseguido controlar.

Eu sei que nem sempre temos de ver séries de culto e que há espaço para as “Anatomia de Grey” desta vida. Mas ignorem esta, pela vossa saúde mental.

Ou então, vão preparados para aquilo que a série promete: uma narrativa desconexa com maus atores e um desfecho… esquisito?


Chegámos ao fim de mais uma edição. Quero agradecer a todos os que subscreveram a newsletter e que, desde então, me têm feito chegar feedback. Uma palavra de apreço também ao Mário Rui André, e ao Shifter, pelo interesse e a atenção que deram a este projeto.

Dúvidas ou sugestões? Podem encontrar-me pelo Twitter e acompanhar toda a discussão seguindo (e usando) a hashtag #seriesfixesparaverQuero muito ler o vosso feedback.

Partilhem com a vossa família e amigos que estão sempre indecisos sobre o que ver a seguir. Quantos mais formos, melhor.

Vemo-nos, sem falta, daqui a um mês.

Até lá,

Fábio André Martins.