Ninguém quer ver a nova "La Casa de Papel" mas todos vão comentá-la

A história não é nova, mas tanto cativa um miúdo como o quarentão que vê na televisão o escape ao stress diário.

A televisão tem esta coisa de nos fazer odiá-la ao mínimo erro. É por isso que, quando amuamos, generalizamos e dizemos que não a vamos ver mais porque é má — mesmo que estejamos a par de tudo o que se passa, dos programas que estão a dar e das polémicas.

As reações à nova “La Casa de Papel” vão ser muito semelhantes. Ninguém a vai querer ver (porque só pode estar horrível, certo?) mas todos vão espreitar, vão saber o que aconteceu e vão querer comentar. Apostamos?

Estas são as séries que vos trago esta semana. 👇

“Ozark” (Netflix)

A única que mais se aproxima de “Breaking Bad” e que conta com dois atores que não estavam interessados em regressar à televisão — Jason Bateman e Laura Linney. Ele aceitou porque além de representar, podia realizar e evoluir como produtor. Ela tinha curiosidade em ver como o colega se transformava num papel denso e dramático.

A família Byrde é obrigada a mudar-se depois de contrair uma dívida enorme a um cartel mexicano durante uma operação de lavagem de dinheiro. Há perseguições, mortes bizarras, planos e vilões larger than life. A escrita é tão precisa que a equipa de produção aprendeu, com um agente do FBI, a lavar dinheiro para que tudo fosse o mais autêntico possível.

Aos poucos, vamos assistindo à perda da bússola ética e moral das personagens que há muito que deixaram de apenas tentar sobreviver e viram no poder uma sensação deliciosa. Lembra-vos alguma coisa?

“Euphoria” (HBO)

Vou incendiar o circo: lembram-se de como o “The Revenant” foi uma merda gratuita e sem história? Assim é “Euphoria” que ganharia o prémio de série mais provocadora se houvesse.

Está bem filmada e realizada, e talvez por isso mereça que a espreitem. Mas anda sempre entre o choque e o cliché ao insistir numa versão niilista e catastrófica do que (não) é a adolescência. Embora seja passada no tempo presente, a história vai buscar muito ao estilo dos anos 90 e é essa veia geracional que pode ser interessante para alguns.

A nudez é totalmente gratuita e exagerada. Há mamas, 30 pénis num só episódio, felácios, sexo explícito e overdoses. Mas dados recentes mostram que isto não está em concordância com a forma de os jovens se comportarem.

“Master of None” (Netflix)

Foi filmada como se fosse um stand-up e é a que mais representa isto de ser millennial. Antes do escândalo de abuso sexual que obrigou Aziz Ansari a afastar-se dos holofotes, era aqui que nos falava um bocadinho da sua vida enquanto ator. O foco são os desamores, as irritaçõezinhas sem importância e o racismo numa altura em que Donald Trump ainda não era presidente dos EUA.

As personagens são familiares porque muitos dos maneirismos são reais, como os pais de Aziz que fizeram de si próprios sem nunca terem representado. E é a arriscar que a série ganha pontos como quando, num episódio da segunda temporada, Aziz nunca aparece.

Para reforçar a diversidade de Nova Iorque, os produtores entrevistaram motoristas de taxi, porteiros e surdos. O resultado é um dos momentos mais hilariantes da série, quando um grupo de surdos tem um discussão acesa sobre vaginas em língua gestual.

“La Casa de Papel” (Netflix)

A produção espanhola cativa porque há sempre qualquer coisa a acontecer. As personagens são identificáveis e a história, ainda que simples e nada inovadora, não desilude e mantém-nos agarrados com qualquer informação nova que nunca parece forçada.

Além disso, é muito versátil e transversal porque é capaz de entreter um miúdo de 15 anos ou o quarentão solitário que vê na televisão um escape ao stress do trabalho. É isso que leva a que novas pessoas a vejam e a comentem.

Afinal, ninguém quer ficar de fora da conversa — nem mesmo os que juram que não vão ver a nova parte. No mínimo, espreitam sempre. E arrisco em dizer que está melhor do que as anteriores. No fundo, é a mesma fórmula repetida duas vezes com tudo o que isso tem de bom e de mau.

Sobre a série, a convidada Joana Rita Sousa diz que temos atraco. 👇

Segurem-se: os oito episódios da nova temporada da série que trouxe a máscara de Dali para a ribalta não desiludem. Há drama, atraco, histórias de amor, aikido, muito ruído, boom boom ciao e até há Berlim.

A banda sonora e os planos de realização acompanham uma história com ritmo que nos leva a conhecer melhor cada das “cidades” envolvidas no assalto à Casa da Moeda espanhola. Desta vez a tarefa passa por resgatar Rio. Não é pelo dinheiro, é pela família. Qual é o plano? Maratona.


Obrigado a todos pela leitura e à Joana Rita Sousa (sigam-na no Twitter!), comunicadora e fundadora do #twitterchatpt, que aceitou comentar os novos episódios de “La Casa de Papel”.

Vemo-nos daqui a duas semanas, a 4 de agosto. Qualquer dúvida ou sugestão, encontram-me pelo Twitter.

Fábio André Martins