"Chernobyl" é uma das séries do ano que deveriam estar a ver

Retrata o desastre nuclear de 1986 e expõe todas as más decisões que foram tomadas para o encobrir.

Olá, olá. Como estão desde a última vez? Espero que bem.

A partir desta edição, vou pedir a uma pessoa da nossa comunidade do Twitter que escreva sobre uma série que tenha adorado. Esta newsletter é de todos e só vive pela vossa adesão — que tem sido incrível.

A primeira convidada é a nossa Catarina Cabral, ou Cate no Twitter (sigam-na!), que escolheu escrever sobre “Sharp Objects” depois de os amigos lhe terem dito que era uma série “muito boa”.

Numa altura em que a última temporada de “A Guerra dos Tronos” já chegou e não desiludiu em desiludir, estas são as séries que vos deveriam tirar o sono durante a noite. Vamos a isso?


“Sharp Objects” (HBO). Todos os amigos e conhecidos que tinham visto esta série me diziam: “tens de ver, é muito boa”. Nunca perguntei qual era a história, bastou-me ver que a Amy Adams (#girlcrush) era a protagonista e foi o suficiente. Não me desiludi, muito pelo contrário. Fiquei automaticamente viciada. A história é densa e negra, mas prende-nos, estamos sempre com vontade de perceber melhor o que se passa e a performance da Amy é absolutamente irrepreensível.

Acompanha a jornalista Camile que regressa à sua cidade natal Wind Gap, no Missouri, para investigar os homicídios de duas adolescentes. Viciada em álcool e com um passado de auto-mutilação, Camile é uma personagem perturbada que, na sua busca pela verdade, irá reencontrar-se com o ambiente bizarro que impera não só em Wind Gap, mas especialmente na casa da mãe.

A narrativa avança em ritmo lento, mas não desmotivem. Episódio a episódio, entre flashbacks enigmáticos, memórias em forma de fantasma e muitos pesadelos, o nevoeiro começa a levantar-se. As complexas personalidades e histórias dos habitantes de Wind Gap vão-se revelando e cada vez mais nos sentimos a ser absorvidos por toda a intriga. Ao contrário de Big Little Lies — que, apesar de também ser baseado num livro, terá continuidade numa segunda temporada —, Sharp Objects tem apenas uma temporada e fica bastante bem assim.

Catarina Cabral


“Huge in France” (Netflix). Gad Elmaleh é um humorista conhecido e com sucesso em França. Mas quando chega aos EUA para estar próximo da família, a fama não lhe serve de muito. Ninguém o conhece e passa a ser dispensável e irrelevante como qualquer comum mortal. Vale a pena ver e atrevo-me a dizer que é a versão mais leve e descontraída de “After Life”.

E já agora, vejam também o stand-up dele em inglês. É delicioso.

“Sally4Ever” (HBO). Sally vive uma relação aborrecida com David há 10 anos. Ele pede-a em casamento e Sally assume um caso louco e sem limites com Emma — uma atriz e cantora carismática com quem se cruzou no metro. O aborrecimento e a normalidade dão lugar à intensidade, ao sexo louco e sem filtros e aos excessos.

Obrigado ao Pedro Boucherie Mendes pela recomendação, que me disse que a série tinha “do melhor e mais bem feito humor” que viu ultimamente. Confirma-se.

“O Resto da Tua Vida” (YouTube). Chegou a ganhar 4 mil euros por presenças, mas depressa João André (ou Kiko dos “Morangos com Açúcar”) caiu no esquecimento e foi obrigado a trabalhos precários para manter vivo o sonho de representar.

O documentário é do Carlos Coutinho Vilhena, que prometeu relançar a carreira do João através de uma boa gestão de marca. E em menos de um mês, o ator passou de 2 mil para mais de 50 mil seguidores no Instagram.

Apesar de ter confundido muita gente, tudo o que vemos no documentário é real. Desde a produção à escolha musical, há ali muito bom gosto. Vale a pena espreitar.

“Mindhunter” (Netflix). Uma das melhores séries de 2017 focada em meados de 1977, quando não se sabia o que era um serial killer. Acompanha dois agentes que viajam pelos EUA para entrevistar alguns dos assassinos mais violentos nas prisões. O objetivo é perceberem como pensam para aplicar em investigações futuras.

A escrita é exímia, os episódios são tensos e o ambiente é muito negro. Até porque somos obrigados a chafurdar na lama com os relatos que vamos ouvindo. Charlize Theron, uma das produtoras, diz que a segunda temporada estreia já em agosto.

“Chernobyl” (HBO). Não tenho dúvidas de que é uma das séries do ano. Vai ter cinco episódios e promete ser um valente murro no estômago. Não só por retratar o desastre nuclear de 1986, mas porque põe a nu todas as más decisões que foram feitas para o encobrir.

A cidade de Pripyat só foi evacuada 24 horas depois da explosão e a União Soviética demorou dois dias a admitir o desastre. E só o fez porque a radiação foi sentida a mais de mil quilómetros de Chernobyl, na Suécia.

Segundo um relatório da Organização das Nações Unidas, no total terão morrido entre 4 a 50 mil pessoas como consequência da exposição. E todas elas são homenageadas na nova série da HBO.

“Luther” (Netflix). É britânica, tem uma história desconcertante e foi a série que me fez apaixonar por Idris Elba. Sim, mais do que “The Wire”. Mostra o dia a dia de um detetive de homicídios que começa uma estranha e conturbada relação com um dos assassinos que decide investigar.

Para Luther, o trabalho está acima de tudo e isso tornou-o obcecado, possessivo e violento. E o preço a pagar é caro: é que nunca lhe foi possível evitar ser consumido ou influenciado pelos crimes com que tem de lidar.

“Special” (Netflix). São oito episódios de 15 minutos cada de uma série quase autobiográfica de Ryan O’Connell — um jovem homossexual que sofre de paralisia cerebral. É uma comédia leve e descontraída onde o ator aborda e combate dois dos medos com que teve de aprender a crescer: a exclusão de que pessoas portadoras de deficiências são alvo e a homofobia.

Que venham mais séries destas onde a inclusão e a representatividade são o foco principal.


Séries que não deviam ver nem que vos pagassem.

“You Vs. Wild” (Netflix). Depois do sucesso do filme interativo de “Black Mirror”, voltou-se a apostar na mesma fórmula só que com as aventuras do Bear Grylls — aquele tipo que é capaz de beber urina em situações “extremas”.

O problema é que aqui o formato não resulta. E basta ver pelo falatório que se tem gerado à volta da série: que é nulo. Não há uma história que justifique estar agarrado ao comando a tomar decisões, e duvido muito que ainda haja alguém que tenha paciência para ver o Grylls a fazer de conta que é aventureiro e destemido. Porque não o é.

Além disso, a Netflix continua a insistir no erro de permitir escolher opções que, mais tarde, levam a becos sem saída na história. Fujam disto.

“Quicksand” (Netflix). Tentei, forcei, revi e não gostei. A história começa com um crime que ninguém sabe como ou por que aconteceu, mas do qual uma rapariga é acusada porque todas as provas estão contra ela.

Os restantes episódios, contados através de exageradíssimos flashbacks, mostram a vida de alguns dos intervenientes afetados pelo acontecimento violento. Mas se a ideia é verem a série à espera de um desfecho ou uma explicação para o crime então, spoiler alert, não a vão ter.

Além disso, a história não compromete e as personagens são pouco interessantes (culpa do guião ou dos atores?) para justificar o investimento. É pena.


É tudo por enquanto. Dúvidas ou sugestões são sempre bem-vindas. Podem encontrar-me pelo Twitter e acompanhar toda a discussão seguindo (e usando) a hashtag #seriesfixesparaver.

Tentei, nesta edição, ser ainda mais sucinto e menos descritivo para que a newsletter fosse menos pesada. Fico a aguardar o vosso feedback.

Se gostaram da newsletter, partilhem com a vossa família e amigos que estão sempre indecisos sobre o que ver a seguir. Quantos mais formos, melhor.

Muito obrigado mais uma vez e até daqui a um mês.

Fábio André Martins.